Esse motorista é mau caráter. Das poucas habilidades que tenho, e olha que juntas elas não perfazem meia dúzia e... As habilidades, claro. Enfim, das poucas habilidades que tenho, reconhecer o caráter de uma pessoa é a única que realmente presta. Consigo afirmar com legitimidade a péssima intenção dessa nipônica com trejeitos de simpática que acabou de subir, com a mesma facilidade que identifiquei que o negão de calçados esfarrapos, bem aí, do seu lado, é um sujeito honesto. Pois então, também reconheci a má índole desse motorista sem vergonha na hora que atravessei a catraca. Isso foi pouco antes de sentar à janela e passar a observar o fluxo de carros na Borges de Medeiros. Porto Alegre tá mesmo virando uma São Paulo, não? Só que sem a parte boa e cosmopolita, no fundo acho que nós, porto-alegrenses, queremos só a violência e o trânsito mesmo. Agora, falando em cosmopolita, tu viu as duas gurias que estão conversando aqui atrás? Não? Então preste mais atenção garota! Elas não devem ser daqui, pois só falam em espanhol. Isso me lembrou da minha estranha vontade. Conheces a minha estranha vontade? Claro que não, pois tu não me conheces e eu acabo de começar a te apurrinhar com minhas asneiras. Que cabeça a minha. Mas eu vou contar mesmo assim. Eu tenho uma estranha vontade que consiste em saber falar espanhol fluentemente, mas dominando todos os tipos de sotaques de todos os países que falam espanhol. Assim eu poderia viajar por toda a América do Sul, América Central, Espanha e México e me comunicar com todas as pessoas de maneira apropriada, sem a necessidade de ficar me esforçando para entender alguma expressão específica e sem poderem afirmar de onde eu sou, compreende? Se eu não tenho vontade de fazer o mesmo com outras línguas, como o inglês e o francês? Não, não. Não sei por quê. Acho que é a idade. Fazes ideia de quantos anos eu tenho? Setententa e sete! E eu não digo isso, com o peito inflado, em vão. Esses olhos aqui já viram muita coisa durante essa vida menina. Ok, para ser sincero nem tanta coisa assim. Por quê? Eu sempre trabalhei em uma biblioteca organizando livros e arquivos, e nunca tive muitos amigos. Ah, mas uma vez eu fiz uma viagem de uma semana à Cascavél! Parece pouco pra ti? Eu poderia ter feito muito mais? Oras, mas que falta de respeito. Eu sou um senhor de idade já! Vê se eu posso. Quer saber, quando eu comecei a conversar contigo achei que tu tinhas caráter, mas creio que me enganei. Me enganei vergosonhamente, mais uma vez. Fiquei aí, sozinha ouvindo a conversa das pseudo-espanholas. Passar bem.
A Hora e a Vez do Cabelo Nascer
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