domingo, 2 de outubro de 2011

Venho sempre aqui, sim

Abro a primeira porta e enxergo eu mesmo. Sim, sou eu que apareço lá. São cinco e quarenta e seis da manhã, e eu estou acordado. Estou em Leicester Square, sentado perto da estação de metrô, com um copo de Guiness na mão pensando em como conseguir o telefone daquela escocesa que está comprando pizza no bar à frente, neste exato instante. Por sinal, ela é mesmo escocesa? Minha cabeça gira. Fecho a porta e caminho alguns passo, para me deparar com outra porta, pesada e antiga. Agora estou recebendo o troco da refeição que acabo de comer no Mercado Público. Acabei de pagar vinte e um reais por um yakissoba de camarão, com uma sopa de entrada, e recebo duas notas de dois reais velhas e sujas e uma nota de cinco, nova e limpa. Meu estômago emite um som estranho, fruto do tempero ingerido. Minha cabeça chacoalha. A porta se fecha, apenas para eu perceber que existe mais uma à direita dela. Lá estou eu, engatando a primeira marcha e atravessando o sinal fechado. Ô Guilherme... A pressa sempre me fez quebrar uma dúzia de regras. Atravesso a Barão do Amazonas em um átimo de segundo, e agora estou chegando à PUC. São doze para as oito da noite, e eu devia estar na aula há dezoito minutos. Minha cabeça suspira à medida que a porta cerra. Bastou um passe para que eu chutasse no ângulo. Não costumo chutar no ângulo. Não de primeira, mas até mesmo um imbecil tem os seus dias. Virada. Sete a seis para nós, jogo fácil e tranquilo. Minha cabeça comemora, e uma porta automática se abre. Olho para o mapa e confiro as rotas. Roma é uma cidade traiçoeira e não quero me perder aqui. Não pela segunda vez. Peço informação e encontro uma bifurcação. Minha cabeça hesita.


Eu já nasci e morri uma centena de vezes aqui dentro. Cada porta segura uma memória e uma história, algumas já vividas e outras apenas imaginadas. Tive bons, médios e arrastados momentos. Brandos e cabulosos testes. Costumo viajar no tempo com uma facilidade fora do comum por essas bandas, vibrando e me apaixonando por cada detalhe homérico que encontro no caminho. Me perco e me encontro imergindo em cada lembrança. Cada lembrança que eu guardo aqui neste lugar magnífico, infinito e psicodélico. Aqui mesmo, no meu cérebro.

1 comentários:

Anônimo disse...

Where is my mind?