E o dia Comum veio. Veio com todas aquelas coisas clichês que acompanham um dia melancolicamente Comum. Começou cedo, como todo dia regular, e logo foi chamado de terça-feira. Que belo nome para um dia desses. Na verdade, que nome mais infame. O dito (dia) cujo seguia sujo, e com a rotina emperrada. Trabalho incansável. Flanelinhas pedindo trocados. Almoços de 8,90. Bancos em greve. Sinal vermelho e céu nublado. Trânsito pentelho e elevador quebrado. Um dia para desaparecer. Sem show do Primal Scream e sem cerveja de tardezinha. Vinte e quatro horas para pedir arrego. Sem jogo do Inter. E nem do Grêmio. Dois mil e quatrocentos minutos para esquecer, de puro vazio. Nada de especial acontece em um dia desses. O tempo escorre pelas paredes e suja o chão. Mas ninguém nota, porque é um dia cão. Se escrever sobre esse dia já cansa a cabeça de quem lê, imagina a de quem escreve. Óbvio por natureza. Aviões não derrubam prédios em ocasiões como essa. Nenhum presidente é eleito e nenhum filme lançado. Apenas o terrível vazio engolidor ululando o inevitável no ouvido dos seres humanos. Felizes são os ornitorrincos, que não conseguem sentir um dia assim. Sem nenhum motivo para entrar na história, mas, em contrapartida, sem reais razões racionais para ser detestado, o dia Comum veio e foi embora. E no fim todos perceberam. Perceberam que, mesmo sendo irritantemente mais um dia Comum, o mundo precisava, cada vez mais, de dias como esse. Hoje e sempre.
A Hora e a Vez do Cabelo Nascer
2 dias atrás
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