quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Uma nova chance

É, meu amigo, ele tinha uma vida boa. Uma vida boa dentro de uma rotina difícil. Acordar, dirigir e trabalhar. Discutir, vender e enganar. Analisar, compreender e estressar. E uma pausa para o café. O meu, não o dele. Afinal de contas sou eu que estou contando a história, ué. Mesmo em casa o trabalho não cessava. Blackberry, i-Pad e e-mail trabalhavam juntos para que o trabalho não escapasse de sua vida trabalhosa. Nos finais de semana a suposta agenda boa virava a agenda má. Aniversários, meetings do trabalho e visitas à sogra. Cronometrado e pertubador. O único momento de paz era aos domingos, depois do Faustão, quando a namorada saia e ele conseguia ler um livro, sozinho, no silêncio. Foi ae que ele decidiu ir. Não sabia bem para onde, mas sabia que queria ir. E então ele se foi. Deixou tudo para trás: um violão, uma casa, uma bandeira do Chile e uma caneta bic três cores. Se demitiu do emprego e largou a namorada. Cancelou a assinatura do El Mercurio e queimou a velha coleção de selos. Emprestou todos os cd’s para um amigo do trabalho e os livros para um velho inimigo de infância. O porteiro do prédio ganhou a jaqueta da Harley Davidson. A dentista ficou com a prancha de surfe. O lap-top sobrou para um primo distante. Não tinha irmãos. Doou quase todas as roupas e vendeu o jet-ski. Até mesmo do Facebook ele saiu. Concordo, foi uma mudança realmente radical. Pegou uma mochila, a velha camiseta do Colo-Colo, uma muda de roupa, um tablete de rapadura de doce de leite e foi para a China. Viajar a pé. Começou por Lhasa e não parou mais. Qualquer coincidência com um rapaz americano é mera semelhança. Viajou por quase toda a Ásia, sabe-se lá como. Hoje em dia a ex admite que ele era um cara incompreendido. Os amigos pensam que ele morreu. A família acredita que ele enloqueceu. Mas esses tempos eu pude jurar que o vi em uma foto, de um jornal japonês. Lá estava ele, no canto da página. Taciturno e despercebido. Ouvindo o discurso de um japonês eufórico. Lá estava ele, perdidamente feliz.

2 comentários:

Walter Perez disse...

Into the Wild?

3trigan disse...

Bah, manjaste nesse ein. Baita narrativa para um texto nascido em um dia qualquer, ou não?