Caminhando pelas ruas do centro de Porto Alegre, sempre Porto Alegre, enxergo um grupo de manifestantes na esquina democrática. Querem a cabeça da Yeda. E de todo mundo que apóie a situação. “Mudanças já”, eles afirmam. Me esquivo da multidão e sigo em frente. Avisto uma senhora, aparentemente com mais de 60 anos, usando uma máscara branca no rosto. É para se proteger, ela diz. Se proteger da saliva, da gripe suína e da própria paranóia, eu penso comigo.
Na seqüência, três ciganas me abordam e disparam a célebre frase: “Todo o teu futuro por cinco reais”. Céus, porque não carrego cinco reais sempre que saio de casa? Protesto, balbucio que só tenho dois, digo que vou ao banco sacar mais, mas elas aceitam o dinheiro. A minha vida vai acabar antes dos 50, eu vou ter dois filhos e morar em São Paulo, mas só durante um tempo, elas dizem. Fui enganado. Mais uma vez. Nunca fui muito com a cara de São Paulo, logo nunca moraria lá.
Um executivo, vestindo um terno muito caro, ou que aparentava ser caro, vem até mim. Ele quer alguns trocados, só para almoçar. Ele ainda me oferece um livro sobre economia. Afirma que a quebra das bolsas mundiais, lá naquele longínquo ano de 2008, não foi culpa dele. Nem de seus colegas. Nem de sua escola econômica.
O Inferno são os outros e o colapso financeiro chegaria de qualquer maneira, pode acreditar, ele me garante. Digo que já doei dois reais para as ciganas, e agora to sem nenhum tostão. Ele reclama das ciganas, malditas ciganas, “sempre chegam antes”.
Seguindo em frente, passando pelo Mercado Público, me deparo com um senhor tocando violão. Tocando, olhem só, Pearl Jam. Ele não pede dinheiro algum, mas pela maneira como toca ao notar minha aproximação, quer um ouvinte para seu som. Depois de duas músicas ele me dirige a palavra. Afirma que já viu o rock nascer e morrer umas vinte vezes, mas que ele gosta mesmo é de jazz. E o mundo devia escutar mais jazz. Eu aceno com a cabeça e sigo andando.
Próximo à rua Marechal Floriano, um grupo de pombas, bem simpáticas por sinal, insiste em sujar a roupa das pessoas com seus dejetos. Crianças sem camisetas, adolescentes de blusão, idosos bem-vestidos e adultos de calça jeans. Não importa a idade, a classe social ou o vestuário, elas sujam a pessoa da mesma maneira. Não que algumas delas, as pessoas, não estivessem sujas, antes; eu explico: naquele pedaço do centro porto-alegrense, tudo e todos pareciam
sujos, demasiado sujos.
Subo a Dr. Flores. Ao lado do Mac’Donalds, tem um cara desesperado querendo comprar ouro. E outro querendo cortar cabelo. Eles berram incessantemente “Ouro, ouro, ouro” e “Corte de cabelo, cabelo, cabelo”. Descubro que eles, assim como a maior parte dos anunciantes aqui, só divulgam o serviço, não exercem a profissão. Tempos malucos. Decido mudar de rota, e ir para a praça da Alfândega.
Enxergo camisetas. Muitas camisetas. Nas estampas: ícones da música, símbolos pop e frases de efeito. Lisergia ao pé da letra. Mas além dos artigos psicodélicos encontro itens cafonas. Cintos, saca-rolhas e cachorrinhos de pelúcia. Tudo barato e descartável. Acabo comprando uma boina, e decido guardá-la para o inverno.
Chego ao Gasômetro. Já são quase 18h. Como ainda é verão, o sol ainda ilumina nossa (in) feliz cidade. Algumas crianças jogam futebol a minha esquerda, alguns adolescentes fumam maconha a minha direita e algumas senhoras discutem o preço da carne moída, logo atrás de mim. Tudo na mais inconsequente ordem. Me aproximo da beira do lago, que é um estuário e todos insistem em chamar de rio e atiro uma pedra. Uma não, duas. Nesse momento eu paro e penso em quantas coisas e situações diferentes eu vi em menos de 30 minutos de caminhada, porém esqueço tudo rapidamente para juntar a terceira pedra e atirá-la ao rio.